Tempo de posse de bola médio por jogador

Outro dia eu assisti à ótima entrevista do Rafinha, jogador recém contratado pelo Flamengo do Bayern de Munique, no programa “Aqui com Benja”, e várias coisas que ele falou me chamaram a atenção, mas uma em particular. Segundo Rafinha, a velocidade do jogo no Brasil é completamente diferente da praticada na Europa. Em suas palavras: “… esse é lento, pra Europa não serve. Quantas vezes eu já escutei - ‘nossa! que moleque bom! Mas pra Europa, não dá…’ Mas como não?! É porque na Europa o jogo é mais rápido, até ele se adaptar vai um ano, um ano e meio; são poucos jogadores que chegam e e já estão na velocidade européia… A velocidade que a gente enfrenta aqui, que a gente treina aqui, é muito maior… Vai fazer 8 anos que estou no Bayern de Munique, todos os treinadores que passaram aqui - Jupp Heynckes, Guardiola, Ancelotti e agora o Kovac - cara, a não ser os extremos, nós somos treinados para dar um, dois toques na bola - pode ver os jogos do Bayern, o terceiro toque só em caso de emergência”. Ele fala mais um monte de coisa interessante, e você pode acessar nesse link aqui a entrevista completa (essa parte específica da entrevista começa em 26:54).

A entrevista de Rafinha reforça o que Douglas Costa já havia comentado em outra entrevista, com o link aqui. Segue: “Como você observa o Grêmio lá de fora? - Não só o Grêmio como o futebol brasileiro. É um futebol um pouco mais lento. Quando comparo com um jogo de Bundesliga (campeonato alemão) ou Liga dos Campeões, parece que o futebol brasileiro é outro esporte. A agressividade que temos na Europa é totalmente diferente da que temos aqui. Bayern e Barcelona sufocam o adversário. Domingo, o Grêmio saía jogando e a Ponte Preta dava espaço. O volante tem tempo de girar, olhar, pensar e ninguém chegar. Na Europa, o adversário já roubou a bola. E nem precisa ser o Bayern de Munique. Pode ser o Colônia.”

Os dois jogadores têm experiência tanto no Brasil quanto na Europa, e ambos afirmavam a mesma coisa: o futebol na Europa é muito mais rápido que no Brasil. Em outras palavras, eles também estão dizendo que cada jogador fica menos tempo com a bola. Mas o quão mais rápido? Nesse post eu vou explorar um pouco esse tema, comparando dados referentes ao Campeonato Brasileiro e às principais ligas européias - espanhola, francesa, alemã, inglesa e italiana.

Para extrair informações dos dados, antes nós precisamos de algumas definições. A posse de bola por jogador (PDBJ) acontece sempre que o jogador recebe um passe de um companheiro, até o momento que ele faz um passe (certo ou errado) ou chuta em gol. Portanto, excluímos posses que tenham começado de um erro de passe do adversário ou algum tipo de rebote. Assim, o tempo de posse de bola de um jogador se dá entre o passe certo do seu companheiro para ele, até o passe (certo ou errado) ou chute que ele der.

Figura 1

A primeira coisa que vamos examinar é a média da posse por jogador no Campeonato Brasileiro e como ela tem se comportado no tempo. O gráfico a seguir nos traz duas informações: uma é o quanto o tempo médio de posse de bola por jogador tem se comportado no tempo, e também quantas posses por jogador, em média, cada time tem, por temporada.

Em 2013, a média do tempo médio de posse de bola por jogador era de 3,02 segundos. Se fizermos um recorte de 2013 até 2016, podemos dizer que há uma clara tendência de diminuição nesse tempo - em 2016 esse número é de 2,92. Porém, nos anos que seguem há um novo aumento leve, sendo que na temporada atual está em 2,96. Podemos dizer que diminuiu, porém agora estabilizou por volta de 2,95. Mas uma coisa que fica bastante nítida é que, com o tempo, o número médio de posse de bola por jogador vai aumentando ao longo dos anos (visualmente é representado pela cor das barras - com o passar dos anos, elas vão ficando mais escuras).

Agora, para sabermos se o tempo médio de posse de bola por jogador, no Campeonato Brasileiro, é alto ou baixo, precisaremos da nossa referência, que são os principais campeonatos europeus.

A Bundesliga conta com apenas 18 equipes, por isso o Campeonato Alemão fica sem duas equipes em relação aos outros campeonatos.

Aparentemente, os campeonatos alemão, italiano e francês diminuiram suas médias ao longo do tempo, enquanto o campeonato espanhol e o inglês estão estáveis. A média da Premier League, na temporada 09-10, foi de 2.7. Isso quer dizer que, 10 anos atrás, o Campeonato Inglês já era 10% mais rápido que o Campeonato Brasileiro da temporada atual.

É importante destacar que o tempo médio de posse de bola por jogador não filtra região do campo, nem tipo de jogada (se é um contra-ataque, se é um ataque posicional, etc), portanto, há muitos subprodutos desses dados. Nessa primeira análise, a intenção é apenas demonstrar com os dados, que de fato, no Campeonato Brasileiro, em média, os jogadores ficam mais tempo com a bola. Irei postar mais sobre esses dados, trazendo contextos mais específicos que nos ajudem a entender um pouco mais o comportamento das equipes em diferentes ligas e temporadas.


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